Um conto de inverno

Mais uma vez Hercules pairava no céu, brilhante, iluminando o caminho dos caranguejos em festa, rumando para fora da toca. Risos, alegrias, festas. Estava tão brilhante e feliz que irradiava energia à milhares de kilometros de distância, e peixes, cavalos e leões marinhos se puseram a festejar. Guerreiros e guerrilhas e esquecidas por um dia, por uma noite, armas descansaram no batente da porta. Só por hoje, o que tem demais…
Depois da festa, o gosto da ressaca, o sorriso no rosto… e a volta à rotina, mas haviam sido tão boas as festividades que se confundiram com a realidade, e por alguns momentos os guerreiros esquecem as armaduras, abrem a guarda. Guerreiros não sabem acompanhar a calmaria dos rios, precisam das ondas do mar batendo nas rochas e ecoando morro acima. Contra isto sabem o que fazer. Mas quando as ondas vão no peito, quando o que ecoa são vozes nas lembranças, isto é a mais assustadora das guerras. Um bom guerreiro não se faz com histórias doces e suaves, se faz com ferro e fogo. Uma guerrilheira não nasce com a lança em punho, aprende a manejá-la depois de tantas batalhas perdidas. Sem palavras, as trincheiras são preparadas. Sem necessidade de longas explicações, os guerreiros se reconhecem e se entendem. Se afastam, sabendo que a batalha poderia reabrir as cicatrizes escondidas pelas malhas e coletes a prova de balas. Não foi desta vez. Shiva abençoa seus guerreiros e lhes devolve a serenidade das guerras conhecidas, dos motins costumeiros. Ainda não é hora. A entrega é para os simples, os improváveis, os não iniciados. Os que ainda acreditam no pra sempre, sem saber que pra sempre é tempo demais.
E o caranguejo sacode a areia, arma as pinças em defesa e volta sorrateiro à toca. Outra hora voltará a espiar o Sol. Por hora, é armazenar conchas e procurar as pérolas. Apenas pérolas são eternas.