LinuxWorld – Forma e Conteúdo

A LinuxWorld chega ao Brasil em altissímo nível. A presença macissa de empresas, gigantes, médias e pequenas, mostra que nem só de discurso vive a comunidade Software Livre. Ou seria Código Aberto?

Uma das primeiras conversas que tive foi com Alexandre Oliva, que sempre foi reconhecido pelo chapéu vermelho que carrega nos eventos. Desta vez, quem sabe para se diferenciar das meninas de stand da RedHat que também portava chapéus idênticos, ele encimava com um boné GNU. Durante a conversa, quando eu mencionei Linux ao que ele corrigiu GNU/Linux, e eu o informei que não utilizo esta nomeclatura, obviamente surgiu o debate. E a coisa felizmente descambou para a nomeclatura Free Software/Open Source. O Oliva levantou que muitas pessoas utilizam o discurso Open Source sem defender as questões de liberdade, até mesmo dizendo que isto não deveria ser mencionado. Eu rebati dizendo que o efeito “telefone sem fio” não deve ser usado como argumento contra a idéia inicial. Que no meu conceito, Open Source é o discurso utilizado para argumentar com pessoas para quem o apelo da liberdade não funciona, o que sim, é a maioria das pessoas. Especialmente empresas, que existem para gerar lucros. E que o fato de algumas pessoas distorcerem a idéia OSI para seus interesses pessoais NÃO É EXCLUSIVIDADE da OSI, com a Free Software Foundation ocorre a mesma coisa. Concordamos que não se deve deixar de apontar os ideais de liberdade, cada um no seu modo de trabalho.

Se comentou pelos stands que todos os expositores renovaram interesse para o proximo ano. E realmente, os stands viviam lotados, o que não acontecia com as palestras. Eu arrisco o meu ponto de vista: porque os stands tinham novidades. As palestras, para o público que foram dirigidas, estavam adequadas. Porém o grande público que se dirige a este tipo de evento já está convencido, já sabe do que se trata. E foi buscar as novidades nos stands…

Logo na entrada do espaço central, e cercados pelas dezenas de stands menores, estavam as gigantes. Recepcionando os visitantes, HP e IBM estavam lado a lado nos espaços. A HP estava demonstrando máquinas assustadoramente poderosas, e não apenas isto. Em vários pontos do stand, você podia ver demonstrações sobre virtualização(sim, tá na moda), computação de alto desempenho(HPC), bancos de dados. HPC e Virtualização foram combinados numa demonstração de uso prático: uma fabrica de automóveis utiliza um software, que alimentado com dados de velocidade, peso, material e outros, consegue simular os efeitos de uma batida para verificar a eficiência do material e dos itens de segurança. O que reduz os custos, afinal muito melhor simular do que destruir um carro para descobrir “é, assim não funciona”. E isto pode ser ampliado em muitos milhões: este conceito é utilizado pela Petrobrás para busca de petróleo, e a empresa é reconhecida como a com o maior índice de acertos em perfurações. Para uma perfuração, toda uma estrutura é montada, e apenas uma broca para operação custa em torno de 8 milhões de dólares. Obviamente, uma tentativa mal sucedida causa um grande impacto, e eles não podem distribuir printfs pelo código para testes. E adivinhem? Este grande cluster da Petrobras, que é um dos 20 maiores do mundo, roda em Linux. Um dos envolvidos na contrução dele é Marcos Pitanga, autor do livro “Construindo Super Computadores em Linux”, que foi palestrante do Primeiro e Terceiro Encontro Linuxchix, onde apresentou maiores dados sobre o cluster.

Novell, RedHat e Itautec estavam uma de cara para a outra oferecendo a mesma linha de produto. Porém não se limitaram apenas os brindes e troca de cartões. Nos stands da RedHat e Novell haviam apresentações frequentes. Marcelo Tosatti falou sobre o projeto OLPC, representantes falaram sobre certificação, e foi feito o anúncio do início das operações da RedHat Brasil. A Novell também tinha apresentações frequentes onde o público podia interagir com os produtos, além dos diferentes pontos de demonstração onde podiam chegar para falar com os técnicos e receber informações sobre o que estava sendo apresentado. A Itautec apresentava o Librix em hardware desenvolvido pela empresa. Encontrei a Lisiane Teixeira que participou da produção do Librix, e ela estava bastante entusiasmada em ver o filhote sendo apresentado. Porém o sinal de + vai para a Novell e RedHat que sabendo que distribuições Linux já são velhas conhecidas, prepararam conteúdo extra para demonstrar no espaço.

Finalmente conheci pessoalmente um dos meus mestres de HA, Luis Claudio, ex Conectiva, atual Intel. No “Garden” da Intel, um espaço com sofá, café, onde demonstravam soluções parceiras de VOIP, e entre uma interrupção e outra, travamos um divertido debate sobre processadores 64, flags de compilação, gentoo e nerds. No FISL havia encontrado Olivée Leite, outro dos meus mestres em HA, que ficou feliz em saber que eu estava tentando reativar a lista de HA brasileira no Linuxchix, onde ele já entrou e ajuda a resolver problemas dos participantes. Agora, fica a promessa do LC de voltar aos velhos tempos também, se ele conseguir algum tempo livre!

Alias, um dos pontos altos foi encontrar muitos profissionais lá que por muito tempo ralaram e ralaram e ralaram e ralaram e agora continuam ralando, porém devidamente valorizados pelas empresas. Afinal, um nerd competente e que ainda consegue se comunicar adequadamente, que mantém responsabilidades e sabe que acima de divegências filosóficas, os clientes estão esperando soluções, é um profissional atualmente em alta. Eu sempre fiquei pensando nas pessoas que ficam apenas no campo teórico das questões, esbravejando contra as grandes corporações, enquanto compram sua Coca-Cola no McDonalds com seu cartão de crédito, e tem ataques histéricos quando o sistema da compania aérea cai e atrasa todo o embarque. Será que nesta hora, se o cartão não passasse, se o vôo fosse adiado, e o banco saísse do ar, se contentariam em saber que está tudo sendo migrado para um software que não é ainda usável, porém é livre?

Muitos conhecidos, vários amigos, dezenas de stands, soluções. Ao lado da Solis, o pessoal da CrackIT demonstrava as soluções enquanto um palhaço criava pinguins com bexigas. Para os que se lembram, a CrackIT foi a empresa que por mais de um ano hospedou o nosso servidor, e devido a espaço físico não foi possível continuar. Não custa sempre lembrar de quem ajuda na caminhada.

A Solis, com a experiência de quem já tem muitos anos de estrada tanto no mercado corporativo quanto nas soluções livres, apresentava seus sistemas. Eu acompanhei algumas explicações feitas pelo Marcone, Josi e Alex, e era por vezes engraçado a surpresa das pessoas quando descobriam que o software era gratuito, que eles podiam baixar da internet e olhar, modificar, fazer o que quisessem, mas se eles quisessem o apoio e suporte de especialistas, eles poderiam conversar sobre negócios. E com toda a expansão, todos os clientes, soluções e desenvolvimento, a Solis é um exemplo cada vez mais vivo de que competência é o que faz a viabilidade das soluções livres.

E por último, obviamente a palestra de Bill Hilf, da Microsoft, responsável pelo Open Source Lab. Podemos dizer tudo, menos que os caras não tem coragem de dar a cara a tapa. Ele estava lá na primeira fileira e assistiu a palestra de Maddog. Sempre um gentleman, nosso embaixador retribuiu, mas obviamente não apenas por gentileza. O discurso de Bill Hilf, no geral, todo mundo pode adivinhar: interoperabilidade é a palavra de ordem. Com dezenas de sistemas em todos os níveis, desde hardware, conectividade de rede, bancos de dados e sistemas operacionais, não se pode mais exigir que o cliente mude toda sua estrutura por causa de determinada peça do ambiente. Mostrou um exemplo de um hospital dos EUA, onde eles prestaram todo o suporte a JBoss para a integração com o Windows, mesmo sabendo que eles eram concorrentes diretos. O cliente já havia feito a escolha, já estava decidido, e eles decidiram cooperar ao invés de tentar forçar uma escolha .Net. Falou também sobre as licensas que criaram para liberar os códigos que foram sendo abertos. Ele citou uma parte da palestra do Maddog, para enfatizar: “Escolha e concorrência são ótimos, para todo mundo. Nós acreditamos que todos, inclusive os desenvolvedores, tem o direito de escolher como vão licenciar seu trabalho. Liberdade começa aí: deixe-me escolher o que eu vou fazer com meu trabalho; não me obrigue a seguir seu caminho ou sair do caminho, deixe-me escolher o meu caminho”.

Durante a palestra, um dos técnicos demonstrou as mudanças feitas no Active Directory para permitir logon de Unix/Linux na base de dados. Procurei o técnico depois da palestra para falar sobre isto, já que há muito tempo publiquei um artigo sobre autenticação Samba no AD, e muita gente me pedia ajuda para realizar o mesmo no login do Linux. Ele me contou como é feito, trocamos e-mails e logo pretendo aumentar a documentação para atender a este aspecto.

Muitas gravatas, ternos e terninhos, trocas de cartões e reencontros. Excelência tecnológica não precisa ser associada a inabilidade de comunicação. Competência não necessita ser demonstrada com exentricidades e estrelismos. Trabalho e código não são feitos de brados, apitos e cerveja grátis. E quem paga a conta quer resultados práticos. Do ponto de vista de expositores, técnicos, palestrantes e clientes, o evento foi um sucesso estrondoso. Quem não está acostumado a bradar discursos inflamados e não receber aplausos, que não está acostumado a um ambiente onde a prática precisa ser demonstrada e não apenas a teoria, provavelmente não gostou. Mas se até a Microsoft reavalia seu discurso e seus representantes compartilham informação, é sinal de novos tempos. Como disse Franklin Carvalho, para muitos, “o software é livre mas a mente é proprietária”. Liberte sua mente. Bem vindo ao mundo real.

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