Profissionalismo para Nerds

Durante a OSCON 2007, eu assisti a uma palestra fantástica, chamada “Como Protejer seu Projeto de Pessoas Venenosas“. Era sobre aquelas pessoas que, diferentemente de trolls, não sabem o quanto são prejudiciais ao projeto, e acreditam sinceramente que seu comportamento é de “crítica construtiva”. Ou aqueles que acham que ajudam tanto que tem o direito de se comportarem da maneira que quiserem. Também aqueles que se acham tão mais inteligentes que tratam todos com esta percepção. E foi lá que ouvi uma pérola daquelas inesquecíveis:

Genialidade hoje em dia é tão comum que excentricidade não é mais aceitável.

Principalmente na nossa área. Computação não é mais restrita a nerds que passaram a adolescência devorando livros de Assembly ou Fortran que depois de adultos descontam o tempo perdido em outras pessoas que não fizeram o mesmo, ou de Bastardos Operadores do Inferno que controlam tudo e todos. Com tantas opções de empresas, provedores, buscadores, blogs, ferramentas, o atendimento ao usuário – seja ele externo ou interno – é uma medida na hora de escolher onde gastar seu dinheiro.

Isto se extende ao número de profissionais no mercado. Existem poucos profissionais bem qualificados – com um bom inglês, uma boa experiência profissional e uma boa universidade – mas existem muitos profissionais digamos na classe média da profissão. Sério, muito mais do que você imagina. O problema é que dentre todos estes, aqueles que tem uma boa postura profissional são verdadeiras raridades. Eu vejo artigos, blogs e reclamações – meu Deus como este povo reclama! – de como uma empresa deve tratar seus nerds, mas nada a respeito de como estes nerds deveriam tratar a empresa. É claro que interessa as empresas manter seus profissionais, rotatividade de funcionários é despendioso demais – porém o maior interessado, se você está lendo isto, é você mesmo, não é? Imagino a vontade que você está agora de desfiar o quão terrivel foram as últimas 10 empresas que você trabalhou no último ano, mas já parou pra pensar que no fim, é você que está novamente procurando emprego? Ou que novamente, você foi deixado de lado na promoção? É isto que estou querendo falar, assumir para você a responsabilidade da sua carreira.

A maioria considera conhecimento e desempenho técnico como a única medida de avaliação. E olha que se seguirmos esta linha, ainda assim é complicado: uma pesquisa certa vez mostrou que pessoas incompetentes não sabem avaliar o nível de incompetência – óbvio, falta conhecimento para fazer, falta conhecimento para avaliar. Mas mesmo assim, descontando esta parte e fazendo de conta que todo mundo tem o nível de conhecimento técnico que acredita ter, a postura profissional na maioria das pessoas é sofrível. Extremamente sofrível.

A minha também foi, por bastante tempo. Mais que sofrível, terrível. Até por isto que sei bem do que se trata, pois sei bem as oportunidades que isto me custou, e o tempo desperdiçado que poderia estar progredindo. E o quanto mais você cresce profissionalmente, pior fica, pois os erros tem um alcance muito maior. E a algum tempo venho pensando em falar sobre isto. Pois decidi por a prova, e parece que o assunto interessa.

Então de acordo com a programação preliminar do FISL 9.0, dia 17 de Abril, as 13:00hs, na Sala Marcelo Tosatti, vou apresentar a palestra Profissionalismo para Nerds – Eu já sei o que eu vou ser quando crescer:

“O que você quer ser quando crescer? Gerente, Diretor de Tecnologia, trabalhando de gravata numa sala só sua? Kernel hacker, trabalhando de pijama e pantufas em casa? Ou consultor, montando sua própria pequena empresa, pois assim acredita que ganhará mais e implementará melhor os projetos, pois é óbvio que deveria ser a distro XYZ e não KJL? Sabe como chegar lá?No mundo profissional, apenas conhecimento técnico não conta – e acredito que todos sabemos disto. Mas ainda erramos muito na apresentação, e principalmente na continuação do trabalho – uma vez lá, que tal uma promoção de vez em quando?”

O nome da sala é perfeito. Tosatti é um excelente exemplo de crescimento e transformação profissional. Quem o conheceu quando ele foi declarado mantenedor do kernel, e o conhece agora, consegue avaliar do que estamos falando. Mas enfim. Vamos ver no que vai dar 🙂

31 thoughts on “Profissionalismo para Nerds

  1. Por sorte sempre vai ter lugares seguros para quem quer ser avaliado em bases meritocráticas, não num padrão arbitrário de normalidade datado da Revolução Industrial. No passado existia a Xerox Parc e a Bell Labs. Você que está lendo isto e sente uma pontada na nuca cada vez que a palavra “profissional” é usada como adjetivo: vive em 2008 e quer criar grandes coisas? Cansado de não poder usar “fica mais bonito assim” como argumento? Acha que não precisa ser “sério” para fazer dinheiro? Acredita que a vida é mais que subir a escada corporativa? Venha trabalhar no Google! Dois anos seguidos elegido o melhor lugar para trabalhar pela Fortune! A comida é ótima & os projetos melhores ainda.

  2. Como eu imaginei, cada um transfere e interpreta o que lê de acordo com a experiência. Onde eu digo “profissionalismo”, você lê “normalidade”, e lá vem novamente toda a novela de gênio incompreendido…

    Também há quem ache que decorar livros de sistemas operacionais para conseguir um emprego não é o que pretende fazer da vida.

    Mas enfim. Felicidades no Google. Se a comida é um parâmetro para medir satisfação no emprego, parabéns por ter alcançado!

  3. Concordo com muita coisa do que você disse aí. Principalmente quando você fala como os nerds deveriam tratar a empresa. Muitos nerds acham que uma empresa é só a parte técnica e gostam de menospresar ou rebaixar pessoas que não trabalham nessa área. Tudo bem que tem alguns “pointy-haired-bosses” que merecem…

    No mais, achei esse texto muito Max Geringer. Acho que você está indo para o lado negro da força 🙂

  4. Enquanto estiver na linha do Max Geringer, estou feliz 🙂

    Acho que preciso adiantar o primeiro slide da palestra: sobre o que esta apresentação não é.

    Isto não é um manual nem um curso de auto ajuda profissional. Uma das coisas mais irritantes são aquelas pessoas que decoram o roteiro para entrevista e o roteiro de “bom comportamento” em empresas. Você ouve aquilo e sabe que a pessoa está aplicando um dos clássicos que destruiram o bom senso e a autenticidade, tipo Quem Mexeu no Meu Queijo, 10 Mandamentos para Pessoas Eficiente/Bem Sucedidadas/Milionário…

    eu vou apenas dar idéias e sugestões voltadas aos problemas mais comuns, e só na nossa área. Se alguem sair repetindo exatamente tudo que eu disser como um robô, eu me mato. Não, nada tão radical. Eu mato quem fizer e dizer que eu que ensinei 😀

  5. Eu queria poder estar lá para assistir essa palestra!

    E o que tem de errado com Max Geringer? O homem fala das coisas com bom humor e sinceridade, o que tem de mal nisso?

  6. Em 1993, ainda na ETF-SC a professora da Disciplina de Relações Humanas trouxe um estudo mostrando que a técnica é importante sim, mas numa lista de exigências do profissional ela ocupa a quinta colocação. As 4 anteriores diziam respeito a como a pessoa trata a si, seus colegas o ambiente onde trabalha e a empresa em si.
    Só o texto que escreveste neste post me trouxe toda aquela aula de volta, inclusive, isso também já foi tema de uma Super de alguns anos.
    Acho bastante oportuno abordar isso. Algumas vezes a gente entra num ritmo de alcançar resultados e resultados a todo o custo e começa a esquecer de quem está em volta.

    Parabéns pela iniciativa. Desejo sucesso na palestra. Não vai ser dessavez ainda que vou ao FISL.

  7. Dizer que “talento abunda” é papo de gerenteco de empresa. Aquele tipo de gerente que fez MBA, PMI e acha que pode mover o mundo, e precisa de um monte de abobalhados à sua volta para justificar sua posição. Mas quando precisa algo bem-feito e rápido, contrata uma empresa terceirizada.

    Ponho mais fé no que dizia meu ex-chefe, o Adoniz. Basta o sujeito ser inteligente, que o resto vem sozinho, até mesmo profissionalismo.

  8. Me dava arrepios ouvir o povo que queria gerenciar com o que aprendeu no PMI, ou que queria implantar os passos do ITIL…

    Mas se eu me lembro bem, esta idéia surgiu certa vez quando todo mundo estava revoltado com a promoção de um puxa-saco de primeira, aquele que dizia que faria tudo e não fazia nada, a gerente. Mas para mim a questão era que mais ninguém queria assumir a responsabilidade, logo…

    Agora, eu não acredito nesta que basta ser isto ou aquilo e todo o resto vai cair do céu. E é bem sobre isto que a palestra é.

  9. * Por mais que abundem genios, oportunidades também abundam
    para eles (pelo menos por agora) e nem toda empresa vai
    conseguir ter a quota que se acha ter direito.

    * Ninguém gosta de trabalhar com prima donas, nem gerentes nem outros engenheiros. Por outro lado, ninguém gosta de
    trabalhar para PHBs exceto, talvez, outros PHBs.

    * O mundo realmente está cheio de primas donas excentricas
    e egocentricas, mas também esta cheio de PHBs. O jogo justamente consiste em empresas pescarem bons
    profissionais com a competencia necessária e os
    profissionais encontrarem uma boa empresa com gerentes
    com quem seja um prazer trabalhar. Se um gerente
    só consegue encontrar auto-proclamados genios com mau genio,
    talvez seja culpa deles por estarem procurando no lugar errado, selecionando mal ou não oferencendo algo melhor que as outras
    empresas? Ou talvez seja(m) o(s) gerente(s) em si?

    * Gerentes e engenheiros são coisas diferentes e
    necessitam de perfis e interesses diferentes.
    Muitas pessoas tem dificuldade de entender que nem todo
    engenheiro aspira uma carreira gerencial, independente de
    questões como responsabilidade ou “people skills”.
    Por sorte algumas empresas já se ligaram nisso e oferecem
    carreiras técnicas e gerenciais com oportunidades parecidas
    para ambos.

  10. “Isto se extende ao número de profissionais no mercado. Existem poucos profissionais bem qualificados – com um bom inglês, uma boa experiência profissional e uma boa universidade – mas existem muitos profissionais digamos na classe média da profissão.”

    Peraí! Se você falar que pra ser um bom profissional em TI é preciso ter faculdade, eu vou falar que também precisa ser homem. 😛

  11. Creio que existe um grande conflito de interesses. Primeiro, tem aquele sujeito “gênio” de Linux, que veste camisa do Linux e advoga a causa do FLOSS e etc. e entra em uma big Corp., é quase certo que ele vai ser “um animal indomável” nesse ambiente. Por outro lado, ambientes Corp. costumam ser insanos. Prazos loucos e pressões assustadoras. Quem é inteligente, acaba se adequando ao ambiente; embora não seja fácil definir qual é a linha do ceder porque é saudável e ceder porque bem… Se vedeu.

  12. Pigmeu, você concordando ou não, o mercado valoriza muito mais um profissional com diploma, e mais ainda com um diploma de uma boa universidade.

    Seu comentario é muito sem noção.

    Será que vai ser assim difícil o povo parar de apontar os erros dos outros e começarmos a falar o que nós mesmos podemos fazer para melhorar o cenário geral?

  13. O ponto não é o que o mercado valoriza – e isto não é uma regra. Eu apenas critiquei a sua opinião que, de certo modo, é tão preconceituosa quanto dizer que TI não tem espaço para mulheres. O próprio mercado que você defende prefere contratar mulheres “gostosas”, não é verdade? E ainda pagam salários menores.

    Concordo com o inglês e acredito que experiência seja o principal fator numa medida de “qualificação”. Mas, talvez mais do que uma universidade, o próprio mercado valoriza demais neguinho com certificação foobar quando precisa de um profissional numa área específica.

    Outra coisa, esse negócio de “tem que ter faculdade” é uma péssima cultura do povo brasileiro, que adora acreditar em instituições falidas.

  14. Não faz parte do meu perfil ler seus posts longos, mas esse me pareceu muito interessante, o seu ponto de vista querendo ou não, isso é uma realidade, primeiro, antes de cobrarmos (reclamar mesmo), temos que oferecer bons modos, na realidade sair do casulo e sermos “legais e agradáveis”, perder essa caracterista que muitos Nerds/Geeks levantam como bandeira “Sou nerd e sou assim, o resto que se exploda” Gosto de ler seus pontos de vista como este, pois seu alvo é uma cobrança de si mesmo, no sentido de falar que a mundança do cenário atual deve alcançar as mudanças feitas por nós mesmo como profissionais. Eu me tenho como exemplo, mudei meu modo de agir e pensar em algumas situações, hoje colho os frutos, coisa que não conseguia por só olhar para meu Umbigo a tempos atrás. Parabens, foi bem colocado!

  15. Sério eu não acredito nas bobagens que tu disse aqui, tu tá trabalhando na empresa do dilbert ou é só treinamento pra lá?

  16. “Será que vai ser assim difícil o povo parar de apontar os erros dos outros e começarmos a falar o que nós mesmos podemos fazer para melhorar o cenário geral?”

    Eu voto pra tu ficar quieta… o q tu acha? Talvez seja hora de tu mesma olhar pro que tu ta fazendo e ver que é hora de parar.

  17. Não, não é verdade. IBM, HP, Intel, EDS, só para dar exemplo, tem bônus ou programas para promover diversidade, e dentro destes programas tem uma área especial para contratar mulheres. E o corpo delas não tem nada a ver com isto. Claro que muitas empresas ainda acham que mulher deve ser contratada se for gostosa, mas estamos falando de profissionalismo, não de alguem gastando recursos financeiros da empresa para satisfação própria. Não apenas anti-profissional, anti-ético e estúpido do ponto de vista de gerenciamento.

    E eu tenho sim a opinião que um diploma numa boa universidade é essencial para um profissional maduro. Talvez não seja para gênios como Steve Jobs ou outras raríssimas exceções, mas convenhamos que estes não dão sopa por aí… Para o geral, faz muita diferença. Talvez eu tenha deixado transparecer, mas quis dizer que é uma exigência de mercado. Você pode não concordar e preparar uma página de comentário dizendo o porque não concorda, mas não vai mudar nada. Eu acho que com diploma já é difícil, sem nem isto então…

  18. Olha, mais um fã… que fofo, até copia meu nome…

    Engraçado que até agora eu não falei nenhuma das dicas ou sugestões, mas já me chamaram de “do tempo da revolução industrial”, já sairam falando dos PHB e Dilbert… eu sabia que ia doer no calo de muita gente, mas será isto uma causa perdida?

  19. O que tem os PHBs do dilbert? É só uma figura alegorica,
    nao foi intencao ofender nem nada. Só escrevi minha opiniao,
    nao precisava entrar em modo defensivo 🙂

  20. Não tem nada a ver com modo defensivo, tem a ver com foco. Não tem nada de prático em criar ainda mais um espaço para criticarmos chefes, gerentes e corporações. Meu ponto é focar no que nós podemos fazer para melhorar. Este é o meu objetivo. O que o Dilbert faz por exemplo para melhorar seu dia a dia? Nada, fica lá bundando acatando o que o PHB manda… claro que se ele fosse pro Google pelo jeito o cartoon acabava, mas na vida real, vamos ficar conformados como ele?

  21. Hm, pode ser. Mas o comentário do Kojima foi novamente falando os problemas do outro lado, e isto nós já sabemos. Por isto acho chover no molhado…

    Quem sabe eu deveria fazer um post para criticarmos isto? Tipo, fazer 3 relatórios para mudar uma linha de configuração, escolher o puxa saco para promoção, querer colocar banco de dados para guardar configuração em um sistema embarcado… isto deixaria vocês felizes? 😀 pois são todas experiências que eu tive…

  22. “bônus ou programas para promover diversidade” pra mim é cota.

    Mas concordo integralmente com seu texto. No mundo corporativo (leia-se empresas grandes de verdade e sem ser nas áreas de P&D) o “profissionalismo” é o que conta. Você pode ser um “gênio”, mas se chega atrasado ou não se veste de acordo, se não puxa o saco e não é falso, sua chance de progredir é zero. Seu trabalho não é tão importante, o que vale é cumprir as regras e saber se relacionar. Por isso os idiotas viram chefes, como Dilbert nos mostra e como já comprovei empiricamente.

    Regra de ouro para nerds no mundo corporativo: não seja você mesmo, tente identificar como o empregado padrão enxerga o mundo e finja pensar do mesmo modo. Se acha que não vale a pena, procure viver de outro jeito, mas não fique maldizendo as empresas.

  23. Jeremias, não concordo com você. Se o puxa saco é o único se dando bem, o problema é o chefe, mas você pode resolver mudando de chefe – grandes empresas geralmente são fáceis de mudar de área – ou de empresa, se não tiver jeito.

    Mas muita gente acha que ficar reclusa na frente do computador, sem ninguém saber nem o que está fazendo ali, vai magicamente recompensar. Ou que é tão bom que pode ser uma primadona, como disseram antes.

    E o pior é que tem muitas primadonas que estão longe da genialidade que julgam possuir…

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