Londres – primeiro mês

Mais de um mês depois, finalmente vou parar para escrever como foram os últimos tempos. Por mais que a gente se prepare, saiba que não vai ser fácil, que vai ser diferente, só mesmo depois de chegar é que tem real noção do quão difícil é. Na verdade, apenas depois de algumas semanas é que você realmente aceita que vai ser complicado por um tempo ainda…

Cheguei em um sábado pela manhã, depois de uma viagem insone de mais de 10hs. Foi bom porque vi vários filmes, e Slumdog Milionaire realmente mereceu o Oscar. Bom, cheguei, apresentei documentos, imigração me enviou para um raio X de tórax – segundo me explicaram, requisito para todos com estadia de mais de seis meses, o que não ajudou a me sentir melhor. Porém de volta a imigração depois do exame, o policial notou minha camisa do Iron Maiden e puxou assunto sobre os shows, de como eles fizeram mais shows no Brasil no ultimo ano que no Reino Unido. Já ajudou a melhorar minha moral. Eu sou paranóica, embora com visto, carta, documentos, dinheiro, as notícias sobre brasileiros na Inglaterra não são exatamente animadoras. Felizmente isto não foi relevante, e com tudo em ordem fui admitida prontamente.

Van de Heathrow para Docklands, para a imobiliária, da imobiliária para o apartamento. Eu havia reservado o apartamento definitivo pela internet, e embora tivesse todas as informações, planta, visita virtual, metragem na página, claro que era uma aposta. Mas quando entrei e vi a vista, fiquei imensamente grata por ter seguido minha intuição e reservado este, ao lado do Tâmisa. O que nas próximas semanas se mostrou uma ótima decisão, porque se além de todo o resto eu ainda tivesse que procurar apartamento, pagar hotel e negociar com imobiliárias, ia ser ainda mais difícil. A prestação de serviços aqui é decepcionantemente ruim. Quatro ligações para British Telecom, para conseguir um telefone no apto, e assistentes tão bem treinados quanto a Telefonica, onde a cada ligação você recebe diferentes informações e prazos. Finalmente, descobri que enquanto não tivesse uma conta bancária ou cartão de crédito local, não ia conseguir. Ok, vamos ao banco. Esta parte até que foi fácil, pois três dias depois de chegar, recebi o Council Tax (IPTU) no meu nome – aí sim foi eficiente – então já podia ir no banco abrir uma conta. Depois foi esperar vários dias úteis para a ligação do telefone, mais alguns para internet, e outros para TV a cabo (por comparação, quando assinei Virtua, foi instalado dois dias depois, em um sábado a tarde, e habilitando tudo na mesma hora). Enquanto isto, eu lidava com outros problemas: o apartamento veio mobiliado, porém a cama era impossível. Eu sentia literalmente cada mola – o que o Héctor chamou de uma sessão de acupuntura ruim. E implorando para a imobiliária falar com o proprietário para que ele removesse a cama, ou pelo menos o colchão. Duas semanas depois, a resposta definitiva: ele não tinha onde guardar, eu poderia me desfazer mas teria que deixar outra no lugar quando saísse do apartamento. Fiquei passada, mas depois pensando com calma, vi centenas de camas para vender no Gumtree – tá bom, eu coloco a cama que quiser, depois compro alguma outra usada e deixo no lugar. Mas claro que não seria assim tão simples: a cama tem um tamanho estranho, 137x190cm, e transporte de coisas grandes por aqui é dificil e caro, existe muita gente vendendo super barato ou até doando para quem consiga ir retirar. Em uma visita a Ikea Zaragoza, decidi qual colchão queria, porém ainda não estava disponível em Londres, em nenhuma das lojas longe pra burro do centro e das bordas da cidade. Depois de um programa de índio visitando uma delas, aprendi a confiar no website – se ele diz que a loja não tem algo, é porque não tem. Tudo mudou ontem, quando finalmente o colchão que eu queria do tamanho que eu precisava – e claro, pelo preço que eu estava disposta a pagar, o maior motivo de preferir a Ikea – finalmente estava disponível. E lá vou eu para os cafundós, e finalmente as coisas começaram a se acertar. Ao invés de esperar pela disponibilidade da Ikea, descobri que alguns donos de vans faziam o transporte ali também, e trouxe meu novo colchão para casa, junto com outras coisas, além de uma carona que me evitou outra viagem metro+trem+onibus de volta. E o que fazer com o colchão antigo? Ainda não sei, tenho algumas opções de vender, doar, deixar na varanda, mas por enquanto está servindo de base para o colchão novo. Ah, a diferença que faz uma noite bem dormida…

E não importa se você se muda para um apartamento mobiliado, sempre falta algo. E para uma pessoa detalhista como eu, até a cor da mesa do computador precisa ser muito bem escolhida. Depois um guarda roupa que caiba no quarto, uma televisão decente, armários para banheiro. Falando em banheiro, precisava de mais gavetas para guardar minhas tralhas cosméticas, enquanto tentava decifrar as substâncias reagentes no meu teste de alergia, e encontrar estas substâncias nos meus cosméticos. Resultado: metade de tudo, incluindo itens novinhos da L’Occitane, todos proibidos e armazenados – este assunto ainda vai me render outro post. E olha, a disposição do atendimento aqui me fez sentir uma saudade imensa de São Paulo – não lembro a última vez que visitei um lugar com atendentes tão antipáticos e de má vontade. Não exatamente todos, mas eu diria que 70%. Outros pequenos dissabores vão pingando mais stress, esperar a mudança, a máquina de colocar crédito no metrô engolindo 50 libras – que felizmente eu recebi de volta alguns dias depois. E embora tivesse a paciente compania do Héctor, que por horas simplesmente me fazia compania enquanto eu tentava resolver internet, banco, etc, foi só na primeira semana, e mesmo morando tanto tempo sozinha, nestas horas eu queria compania. Não é para qualquer um. Estou controlando muito mais as finanças, pois ainda não sei o quanto vale meu salário aqui – que embora tenha sido equiparado ao que ganhava no Brasil, foi equiparado para alguem viver em Swindon, onde está o quartel general, e não para Londres, onde o escritório tem poucos meses e ninguém ainda se preocupou que a diferença de custo é absurda. A pesquisa de mercado me mostrou que o conceito de um bom salário em Londres é decepcionante, mas depois de adiar por tanto tempo, decidi que esta era a hora, e não me arrependo. Só espero que algo mude no futuro próximo. Acho que é como São Paulo, todo mundo acha normal trabalhar em São Paulo e gastar duas ou três horas diárias para morar no ABC… mas para quem trabalha bastante de casa e gosta de curtir seu canto, vale a pena investir.

O pior de tudo foram os sentimentos contraditórios. Custei a admitir que eu estava frustrada com o andamento – ou a falta de – porque parecia que soaria como arrependimento. Eu não estava arrependida, mas muito frustrada por não ter tudo ou pelo menos boa parte do que queria resolvido, e de estar gastando tanto tempo resolvendo isto. Quando finalmente consegui me dedicar ao trabalho, sair para jantar com amigos da universidade, e ir visitar o Héctor no fim de semana, meu humor começou a mudar – finalmente estava fazendo o que eu vim aqui fazer. Mas toda esta confusão, somada ao stress dos preparativos no ultimo mês no Brasil, não foi fácil.

Chega de reclamar né? O lado bom: transporte público aqui é fantástico. Não é barato, me custa mais de 5 libras quando preciso ir e voltar ao escritório, mas não preciso fazer isto todo dia. Pego um ônibus na esquina de casa – geralmente aqueles londrinos de dois andares, que passa no máximo a cada 5 minutos durante o dia, até o metro – DLR – e uma quadra até o trabalho. Quando estiver de volta ao ritmo normal na academia, acho que vou de bicicleta – são apenas 4.6km, em um caminho designado para bicicletas, logo vai ser uma ciclovia. Alias, andando de ônibus, metrô ou trem, e olhando a sinalização das ruas, dá pra entender como estrangeiros ficam perdidos no Brasil. Dá pra ir para qualquer lugar lendo os sinais, guias do metrô por todas as estações, agentes de informação, sinais de transito.

Comida é um item onde Londres é injustiçada pelo mundo afora. Isto pelo menos me fez muito feliz – encontrar opções diversas, diferentes, baratas, prontas, bem preparadas, e o melhor, saudáveis, é infinitamente mais fácil que no Brasil. Mesmo um jantar completo, sentado confortavelmente em um bom restaurante e comendo bem custa em torno de 20 libras. Para almoçar ou levar para casa, Itsu e Eat são minhas preferidas. Carne é incrivelmente cara, mas como nos ultimos tempos eu havia diminuído drasticamente meu consumo de carne vermelha, a grande opção e preços acessíveis para peixe, camarão e cordeiro me servem muito bem. Eu só preciso normalmente lembrar de pensar no jantar no horário normal. Estamos no começo do verão, e o sol brilha forte até 21hs, e eu distraída no computador, acostumada a pensar no jantar quando escurece, ou depois da academia, acabo indo dormir muito tarde por conta disto. Mas o dia mais longo dá mais ânimo, parece…

Depois de visitar a esnobe Reebok e a barata demais LA Fitness, acabei me decidindo pela Virgin Active, que tinha um estilo mais parecido com a Bio Ritmo, mais holístico. E além do que, tem uma piscina com hidromassagem para usar o quanto quiser depois do treino 😀 tenho um mês para a Operação Gran Canária, vamos ver o que consigo até lá.

Mas o melhor de tudo certamente é o ambiente de trabalho. Na parte de infraestrutura, recebi um monitor 22” LCD, vou receber um Thinkpad X200s para usar como máquina de desenvolvimento e um HP Mini Vivienne Tam para demonstração. Isto já dá um animo, porém é o pessoal que realmente tem me feito bem. Geralmente sempre me dei bem com o grupo, porém é a primeira vez que um time é o mais parecido comigo possível. Não são tão parecidos porque eu mudei, já não sou mais a mesma nerd em jeans, camisetas geeks e interesses puramente técnicos, porém compartilhamos os mesmos interesses em open source e um senso de humor muito parecido. Aliás, o senso de humor britânico é um dos meus preferidos, ácido e irônico. Apesar de que eu ainda prefiro ver House em espanhol – ele consegue ser mais mal educado e falar muito mais palavrões que a versão original. Mas voltando ao grupo, acho que vai ser muito bom trabalhar ali. Pela ultima versão do Moblin – que também quero blogar, provavelmente amanhã – dá pra ver a criatividade do pessoal. É muito boa a sensação de estar tão próxima de um projeto assim no momento que ele vem a público, trabalhando justamente na interface deste time e o público.

Este fim de semana foi ótimo. Dias lindos, ensolarados, uma temperatura ótima – uns 24, 25 graus, no ponto em que não é muito quente nem muito frio, o sol forte e o ventinho refrescando – uma noite restauradora, e deixando a casa um pouco mais alegre. Comecei uma coleção de coisas curiosas ou simplesmente legais que vejo passando pelo rio. E apesar de tanta coisa, tiramos um dia na primeira semana para fazer turismo e tirar fotos.

Por hoje é só pessoal!

Por do Sol em Londres

Por do Sol em Londres