Location, location…

Eu havia afirmado antes que o twitter matou meu blog. Mas depois de pensar bem, eu acho que minha vida offline matou meu blog… este blog que já viu dias melhores de 300 visitas diárias em média – o que sempre me pareceu estranho para um blog tão aleatório – tem poucas dezenas de teimosos readers e visitas ocasionais vindas de alguma busca. Há muito tempo passei a preferir a vida offline, mas acho minha vida offline demasiado tediosa para comentar. Ainda quero terminar vários drafts sobre meus lugares preferidos de São Paulo e Londres, mas isto é outra conversa…

Mas para atualizar, me mudei novamente. Deixei a cinzenta e cosmopolita Londres pela verde e alemã Munique. Na verdade uma cidadezinha ao lado de Munique, Haar, a 10 minutos do escritório da Intel em Feldkirchen, também do lado de Munique. Sei meia dúzia de palavras em alemão, mas pelo que vejo o sotaque manezinho vai me ajudar na pronúncia – aquele R que sai rasgando a garganta, o s chiando. Aliás, o sotaque manezinho, assim como o carioca, pode não ser o melhor para a pronúncia americana, mas para a pronúncia britânica, para o espanhol e o alemão ajudam muito. Depois de mais um brasileiro me dizer há poucos dias que eu falo como ‘uma gringa que fala português muito bem’, estou me esforçando para falar mais em português, e menos o portunhol que falamos aqui em casa. Sempre tive esta tendência de pegar o sotaque, fosse o sotaque paranaense quando morei em Foz do Iguaçu aos 10 anos, por dois anos antes de voltar correndo pra Floripa, fosse dos companheiros de universidade. Para aprender pronúncia é ótimo, mas já tenho que parar para pensar ao formular uma frase inteira em português, o que é meio bizarro. Então vou me esforçar em escrever e pensar mais em português…

Mas com a segunda mudança internacional em menos de dois anos, acho que posso dar meus pitacos sobre aqueles que pensam, sonham ou querem mudar de país, por alguns anos ou permanentemente. Já que várias pessoas sempre me perguntam a respeito e pedem dicas, resolvi escrever este post. Se está com preguiça de ler, a versão curta e primeira dica é: vale a pena, mas é muito mais difícil do que você imagina.

Quando eu consegui minha primeira mudança para Londres, foi justamente no meio da ‘crise'[1]. Todo mundo me dizia que seria impossível, inclusive meu chefe, quatro meses antes de me perguntar se eu ainda estava interessada… então meu conselho é: ouça conselhos, mas tome todos com uma pitada de sal. Tem gente que vai te dizer que é impossível, que é horrível, que não vale a pena. Não sei se alguem vai te dizer que é fácil, mas mesmo que te digam tudo o que for, se você realmente quiser, você pode fazer acontecer.

Não vou falar aqui dos caminhos ilegais, está claro. Também não acho necessário falar sobre quem tem dupla cidadania, porque pode ir e vir sem muitos problemas. Vou falar da minha experiência de ter um único passaporte brasileiro e ir com a cara e a coragem. Também só posso me restringir a falar da área de tecnologia – você pode vir estudar, e com visto de estudante e tem direito a trabalhar por 20 horas, quem sabe consegue um estagio que pode levar a uma contratação e visto permanente, mas como não tive esta experiência, não posso ajudar…

Pouca gente sabe que quando aceitei o trabalho na Intel, também tive uma oferta da RedHat na Inglaterra. Ambos eram trabalhos muito bacanas, mas a Intel me abria uma área muito diferente, além de transformar meu voluntariado na comunidade open source em trabalho pago. Foi uma decisão muito difícil, porque significava também deixar a área de adminstração de sistemas, mas fui com a cara e a coragem. Além de ter sido uma experiência excelente, dois anos depois acabei indo para a Inglaterra de qualquer maneira. Como mencionei, não foi uma transferência fácil. Passei bastante tempo martelando na cabeça do meu chefe que eu gostaria de ir para a Europa, mas em meio a crise, a possibilidade era quase inexistente. Até que apareceu uma vaga onde precisavam de alguém que tivesse experiência técnica e comercial, falar não apenas com os desenvolvedores mas com executivos das empresas, e para open source. Mesmo que tivessem me dito que não em um primeiro momento, eu sabia que profissionais com este perfil, ainda mais dispostos a viajarem frequentemente, dar palestras, escrever documentação e tudo, não nascem em árvore. Então eu esperei, e conforme minhas previsões, alguns meses depois, a vaga continuava aberta. E então apareceu minha chance…

Segunda dica: se você tem um diferencial, pode ser mais raro, mas vai aparecer uma oportunidade que pouca gente pode preencher. Então você terá uma carta muito valiosa na negociação. Encontre o seu diferencial.

Porém todo o entusiasmo e a busca pela transferência entregaram o quanto eu queria a mudança. Isto em tempos de crise também deu a empresa uma vantagem: meu pacote de realocação foi resumido ao visto de trabalho. Tive que desembolsar e me virar para encontrar apto e pagar a mudança. O apartamento nem foi problema, porque hoje vejo que é muito melhor pegar o dinheiro e buscar por mim mesma que usar serviços de agências contratadas. Mas foi uma baita grana. O trabalho também era menor do que o que eu tinha feito antes, e tive que me acomodar a descer um degrau e voltar a dar suporte e escrever documentação.

Terceira dica: é extremamente difícil, por todos que conheço que conseguiram realocação, manter o mesmo nível profissional. Você provavelmente vai ter que descer um degrau, se é você que está correndo atrás e não a empresa que precisa que você vá.

Encontrei um ambiente informal, descontraído, com todos vindos do mundo open source. Foram dois anos muito divertidos, que possibilitaram que depois de quase quatro anos namorando a distância, Hector e eu pudéssemos morar juntos. Passeamos, conhecemos muitos lugares, fomos a Paris… mas o dinheiro não possibilitava o mesmo estilo de vida. Um apartamento de 45m2 custava 1300 libras ao mes. E isto porque eu tinha condições de pagar isto – muita gente dividia apartamentos com 6 pessoas para pagar 300 libras ao mês em lugares que ficavam pelo menos a uma hora de trem do centro de Londres. Tivessemos ido morar em algum lugar fora de Londres, seria mais fácil, mas então para que eu tinha me mudado?

Quarta dica: não se engane com o valor do salário, não converta em reais. Procure o custo de aluguel, do leite, da carne, do pão. Da cerveja também, mas neste caso valeu muito a pena 🙂

Morei perto de Canary Wharf, um dos corações capitalistas do mundo. É um universo paralelo, onde estão os bancos, a sede da Reuters e outras coisas. Existe um site de trabalhos ali que oferece salários exorbitantes – de 150 a 300 mil libras por ano para programadores. Muita gente ali ganha 500 libras por hora, advogados, stock brokers. Mas não se engane, estes contratos implicam que se você cometer um erro no programa e o banco perder alguns milhões, você é responsável por estes milhões. Você também não terá vida além do trabalho. Por isto existem muitas vagas abertas, a imensa maioria não aguenta muitos anos nisto, faz por algum tempo para fazer um pé de meia e volta para a vida normal. Mas se você está interessado…

Quinta dica: o site é http://www.efinancialcareers.co.uk/

Na Inglaterra existem muitos eventos e grupos de usuários organizando conferências. Para mencionar poucas, existem a UKUPA(user experience e design),  BSides UK(segurança), BarCampLondon, GeekGirlDinner, e claro, varios MeetUps dos grupos de Meego. Se submeter a vagas por sites é muito pouco produtivo, a imensa maioria das vagas são preenchidas por indicações internas. Então fazer networking é fundamental.

Sexta dica: se puder, busque e atenda eventos de tecnologia.

Setima dica: seja direto.

Uma das primeiras coisas que tive que aprender quando comecei a trabalhar com estrangeiros, quando estava no Brasil ainda, foi a ser direta. Para nós parece falta de educação, mas a quantidade de preâmbulo você tem que fazer com muitos estrangeiros é infinitamente menor do que estamos acostumados. Eles preferem que você vá direto ao ponto, não se preocupe em perguntar da família, do papagaio e do time de futebol, um ‘oi tudo bem, eu gostaria de pedir…’ é suficiente. Depende da cultura, claro: semana passada em uma reunião com um colega de trabalho italiano, levamos 20 minutos para começar a falar do objetivo da reunião… foi muito bom exercitar o lado latino, mas dificilmente funcionaria com um americano, inglês ou alemão. Pelo contrário, eles desconfiariam com tanta enrolação.

A Intel tem na sua cultura incentivar as pessoas a mudarem de trabalho de tempos em tempos. A lógica por trás disto é que depois que você domina um trabalho, é natural do ser humano começar a se sentir entediado e o desempenho cai. E como estou sempre pisando no acelerador, esta fase vem muito cedo pra mim. E assim apareceu uma oportunidade – novamente, uma necessidade específica, alguem com conhecimentos tecnicos e comerciais, mas especialmente para Meego. Mas incluía mudar de país – denovo. Porém o grupo parecia interessante, o projeto desafiante – levantar a AppUp, especialmente promovendo a submissão de apps para Meego. (A propósito, você sabia que pode ganhar 500 dólares se sua app para Meego for uma das 100 primeiras a serem disponibilizadas? E que as 10 melhores ganham mais 1000 dólares? Veja em http://appdeveloper.intel.com/en-us/submit-early ).

Então, lá fomos nós novamente… e a qualidade de vida que encontrei está sendo maravilhosa. Londres é fantástica, mas o tempo este ano estava sendo terrível. Nos dois primeiros meses do ano, vi o sol dois dias – apenas dois dias em dois meses. Não sei se era o efeito psicológico de saber que estava indo embora e então admitir o que me fazia falta, mas era deprimente. Aqui em Munique, o céu azul da Bavária tem se apresentado todos os dias. A comida da cantina da Intel é a melhor de todas as cantinas Intel que já experimentei, então não preciso me preocupar em cozinhar e tenho escolhas saudáveis a disposição.

Mas a fama de péssima comida em Londres para mim é injustificada. É porque somos muito privilegiados no Brasil e não nos damos conta – no Brasil cada esquina tem um buffett de comida a quilo, comida bem temperada e variada. Em Londres é outra coisa, almoço é um sanduíche com um pacotinho de batata frita ou sopa ou salada. Porém existem bons lugares para comprar um sanduíche, e outros que você vai comer comida com gosto de papelão. Eu pessoalmente gostava muito do Pret a Manger e do Pod. Mas se você quer comer comida mesmo, deixe de preguiça: vá cozinhar. Eu comi arroz e feijão muitos dias, preparando no fim de semana e fazendo alguma carne e legumes de manhã cedo. Fazer uma refeição descente em um restaurante não sai por menos de 20 libras – sendo bastante otimista. Então se você não vai se candidatar a vagas lá em Canary Wharf, prepare-se para cozinhar.

Oitava dica: pare de reclamar e vá cozinhar.

E por último, pense bem no seu objetivo de vida. O meu muda frequentemente – não achei que o sol, verde, natureza iam me fazer tanta falta. Estou felicíssima em um apto com jardinzinho, longe do burburinho urbano. Mas muitos dos meus colegas fazem questão de morar no centro, e comparado com Londres, em Munique dá pra morar de boa. Assim, na hora de escolher qual país exatamente se encaixa pense não apenas nos museus, pubs e teatros de Londres, ou na Oktoberfest de Munique. Pense no dia a dia, levantar de manhã, enfrentar transito ou transporte público, almoçar, jantar, fim de semana.

E se tiver o espirito aventureiro como eu, se jogue que a vida leva…

Acho que ainda tem assunto, mas por hoje chega, reviso segunda feira…

[1]A proposito, alguem reparou que no ano da ‘marolinha’, a economia retrocedeu em 2009? link Eu nunca vi nenhum anúncio sobre isto, só agora… mas enfim, que continue expandindo e que o pibão se mantenha.